Os fungos são perigosos para a saúde humana?

Estive em Santiago do Chile para participar do Infocus 2010, nos dias 25 a 27 de agosto, um congresso dedicado ao estudo das infecções fúngicas humanas profundas. São ditas de “profundas”, pois tratam de infecções graves que acometem a corrente sanguínea ou em órgãos internos. Portanto não tratarei neste artigo das infecções superficiais de pele ou mucosas (como boca e genitália externa).

Os fungos causam infecções nas pessoas?

Outro dia conversava com um amigo agrônomo especialista em fungos. Ele me comentava que os fungos são os principais patógenos das plantas, ao que retruquei, “no entanto nos homens eles só causam doenças em circunstâncias especiais”.

Quem está susceptível a ter uma infecção fúngica profunda?

Durante o Infocus discutimos muito pormenorizadamente esses quadros clínicos. A grande maioria das infecções ocorre em:

  1. Pacientes internados longamente nas UTIs, submetidos a procedimentos invasivos como cateteres venosos, ou que estejam recebendo nutrição diretamente na corrente sanguínea ou que estejam sofrendo de doença abdominal severa. Neste caso os principais agentes são as Cândidas.
  2. Pacientes portadores de doenças hematológicas graves que foram submetidos à quimioterapia ou transplante de medula. Neste caso além das Cândidas, temos a ocorrência dos fungos denominados de Aspergillus.
  3. Pacientes com AIDS, que não estão tomando a terapia antiretroviral. Neste caso os principais agentes são o Pneumocistes e o Criptococos.
  4. Os pacientes acometidos das infecções fúngicas ditas de “endêmicas”, que adquirem a infecção a partir de um foco ambiental. Por fim, nessa situação os principais fungos endêmicos no Brasil são o Paracoco e o Critptococo.
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Afinal, por que tanto alerta relativo à Dengue IV?

Os noticiários neste mês de agosto não param de alardear a identificação de um novo genótipo de Dengue no Brasil, chamado de “quatro”. O virus foi identificado circulando em pacientes na cidade de Boa Vista.

Os tipos de Dengue

O tipo IV da Dengue é conhecido desde sempre, no entanto este ainda não circulava no Brasil. São quatro tipos diferentes chamados e “I”, “II”, “III” e “IV”. O mosquito transmissor da doença chama-se Aedes aegypti.

Como a doença se espalhou pelo Brasil

 Hoje ouvimos falar do Aedes aegipsy como se esse já existisse há muitos anos no Brasil. Não é verdade. O Aedes aegypti foi erradicado no Brasil pelo sanitarista Oswaldo Cruz no final dos anos 40 do século passado. Naquela época esse mosquito transmitia a Febre amarela e a partir de então essa doença parou de ser transmitida nas cidades, em especial a cidade Rio de Janeiro.

Foi no final dos anos 80 que o mosquito voltou ao Brasil, a partir de navios infectados pelo inseto. Logo após a reintrodução do mosquito começou a aparecer casos de Dengue. A medida que o mosquito foi invadindo o interior da nação e colonizando os municípios, a doença foi, e vem, adquirindo proporções epidêmicas.

Os genótipos foram sendo introduzidos aos poucos e agora tudo indica que chegou o último que faltava.

Qual é o perigo da Dengue IV?

O perigo reside não propriamente no genótipo, mas na reincidência da doença. Agora nós podemos “pegar” quatro vezes a doença Dengue. Há estudos que indicam que a doença grave conhecida como “Dengue Hemorrágica” acontece após o segundo episódio da doença. O quarto genotipo circulando aumenta a possibilidade dessa forma agressiva aparecer.

A titulo se esclarecimento, mesmo agora a Dengue Hemorrágica continuará sendo uma apresentação muito rara da doença e mais raro ainda sua evolução para o óbito.

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O Gel que Previne a Aids

Recentemente os jornais publicaram os resultados de um estudo denominado CAPRISA 004, no qual mulheres sul africanas se submeteram a aplicação de gel vaginal impregnado com o Tenofovir, um dos componentes do coquetel anti-AIDS. Os resultados do estudo foram alentadores com redução da transmissão em até 54%.

 Vacinas anti-AIDS

A prevenção sempre foi o objetivo maior no combate às doenças infecto-contagiosas. Desde a descoberta da doença vem-se trabalhando no sentido de produzir uma vacina eficaz. Apesar de até o momento não termos uma vacina disponível no mercado, há muitas vacinas experimentais e segundo o editorial publicado na semana passada na prestigiosa revista médica New England[1], será possível contarmos com algo mais concreto até 2013.

 As dificuldades para se produzir uma vacina eficiente

O vírus HIV foi revolucionário no que diz respeito às infecções e quem sabe em outro momento poderemos nos deter nessa consideração. No entanto o resultado de sua infecção é o de uma doença crônica (ou seja, uma doença que se estende ao longo do tempo) viral. Para tanto o vírus montou um mecanismo de integração do seu material genético ao material genético da célula que infecta. Em outras palavras, ao infectar sua célula alvo o HIV reside nela não como um corpo individual, mas como que dissolvido no núcleo dessa célula misturando ao material genético da mesma o seu próprio material.

Tradicionalmente as vacinas agem através da identificação e neutralização do agente agressor, mas se esse agente está integrado e fazendo parte da própria célula do hospedeiro como identificá-lo?

 A luta continua

Seja através do gel, seja através da vacina, ainda não há um produto 100% seguro e, portanto é importante que cada um conheça como a doença se transmite e procure se proteger.

 


[1] N Engl J Med July 29, 2010, Vol. 363 No. 5, em http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1007629

 

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As Bactérias Contra Atacam

Um dado técnico surpreendente

Lendo nestes dias o semanário MMWR do CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA) me deparei com mais uma noticia preocupante: foi encontrado nos Estados Unidos três bactérias, provenientes de três pacientes oriundos da Índia e Paquistão, carregando um novo gene de resistência chamado de blaNDM-1, uma metallo-beta-lactamase, capaz de destruir uma das classes mais potentes de antibióticos conhecidas: os cabapenemas[1].

Antes de existirmos as bactérias já produziam os seus antídotos para os antibióticos

Pode parecer um contra-senso, mas a resistência das bactérias é um fenômeno que antecede a própria concepção dos antibióticos. Hoje as principais classes de antibióticos vieram de fungos, ou seja, foram isolados de microorganismos que habitam há milhões de anos a terra e produzem antibióticos para defender-se. O que o homem fez foi identificar os agentes de interesse na medicina e passar a produzi-los em larga escala. Portanto não é de se estranhar que algumas classes de antibióticos ao serem descobertos, identificou-se que muitas bactérias já produziam regularmente os antídotos para eles.

Quase simultaneamente à descoberta da penicilina e sua ação contra o Staphylococus aureus já começaram os relatos de resistência desse agente ao dito antibiótico. Essa resistência desde então se disseminou tão rapidamente entre as cepas dessa bactéria que hoje qualquer estudante de medicina sabe que é proibido o uso da penicilina para esse fim uma vez que a quase totalidade dos Staphylococus aureus já estão resistentes à penicilina e a vários dos seus derivados.

Duas alternativas: voltar a produzir novos antibióticos e prevenir a infecção

Há no entanto um fenômeno novo que voltou a pender a balança para os microorganismos: a indústria farmacêutica se desinteressou de produzir novos antibióticos. Os carbapenemas, acima citado por exemplo, são do final da década de 80. O resultado é que voltamos a ter algumas dificuldades nos anos recentes para tratar infecções, tanto aquelas adquiridas nos ambientes hospitalares quanto às infecções adquiridas na comunidade. Pode-se dizer que hoje, mas do que em anos passados, a palavra de ordem voltou a ser prevenir.


[1] MMWR Junho 25, 2010 / 59(24);750, em http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/mm5924a5.htm?s_cid=mm5924a5_w.

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A revolução provocada pelos antibióticos

Foi a partir do advento da penicilina que a luta do homem contra os
microorganismos, em especial as bactérias, começou a ser um pouco mais equilibrada.
Digo equilibrada, pois antes dos antibióticos os agentes infecciosos estavam “ganhando
de lavada” como se diz no jargão futebolístico.

Um exemplo dessa luta desleal é o caso da sífilis. Este agente causou durante
séculos uma doença crônica (ou seja, que não podia ser naturalmente eliminada do
organismo) a qual, com o passar dos anos causava graves lesões no organismo, entre
outras uma neuropatia associada a distúrbios neurológicos e psiquiátricos. Hoje em dia
a sífilis faz parte da história da medicina, pois é ultra-sensível à penicilina (e outros
antibióticos derivados da penicilina).

Surpreende, no entanto, quão recente é a descoberta e emprego clínico dos
antibióticos. A penicilina, o primeiro dos antibióticos, só foi empregada regularmente
a partir de meados da década de 40. Por outras palavras, nossos pais ou avós, nasceram
e viveram na era pré-antibiótica e a sífilis reinou por milênios entre os homens sem
nenhum tratamento efetivo.

Doenças de tratamento trivial nos dias atuais simplesmente quase dizimaram
a humanidade. A famosíssima Peste Negra foi causada por uma bactéria chamada
Yersinia pestis. Essa bactéria tratável com antibióticos da classe das Tetraciclinas
foi responsável pelo desaparecimento de um quarto da população européia no século
XIV. A Yersinia não desapareceu, e ainda hoje pode causar doenças graves, mais
de forma muito restrita. Em 2006, por exemplo, o CDC – órgão de controle doenças
transmissíveis dos Estados Unidos – registrou um recorde de 16 casos de “Praga
Humana” 1, muito longe portanto da ameaça que foi para a humanidade.

A lista de doenças, antes graves e letais e hoje perfeitamente administráveis
com os antibióticos é imensa. Pneumonias, meningites, endocardites ou uma simples
infecção urinária eram e são motivo de muita apreensão se não pudermos contar com os
antibióticos. Atrevo-me a afirmar que boa parte da melhora da expectativa de vida dos
dias atuais é devido aos antibióticos.

Mas nesta guerra “nem tudo são flores”, e veremos nos próximos artigos.

¹Vide a publicação do CDC de primeiro de setembro de 2006 MMWR 55(34);940-943, que pode ser acessado pelo link http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/mm5534a4.htm.

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